Eu achava que eu era anormal...calma, antes que você comece a enumerar os motivos que me levaram à essa conclusão, me explicarei. Quando eu era criança, era tímida. Depois, a timidez se misturou à um mal comportamento. Eu era danada, mas mesmo assim não conseguia olhar nos olhos. Muitas coisas aconteceram, fui rebolada no meio de uma multidão onde a regra era "falar ou morrer", então aprendi. Mas, mesmo assim, ainda tem um entalo, como uma bola de pêlos na garganta de um gato. Ele tenta colocá-la pra fora, tosse, parece que vai morrer de um ataque de asma, mas ela se nega a sair, grudada dentro dele. Consigo falar muitas coisas, mas outras tantas, bem maiores, não saem. As palavras são muito pouco, e, mesmo que eu fale, como terei certeza de que quem me ouviu, viu o que eu vi? Sempre imaginei como seria se eu pudesse ler pensamentos, e se todos pudessem ler os pensamentos uns dos outros. Acho que ninguém seria mais amigo, todos se odiariam. Apesar disso, às vezes eu queria que lessem meus pensamentos, para entender que o que eu disse era pequeno diante do que eu pretendia significar. Gosto de poder ficar ao lado de uma pessoa em silêncio, olhando para o nada. Quase ninguém entende essa sensação. É uma espécie de conforto, de companhia solitária. Gosto também de só falar besteira, de rir, de fazer caretas e cócegas, de deitar na barriga do outro e tentar interpretar a língua estranha falada por seu estômago...
Sim, eu comecei dizendo que eu me achava anormal, exatamente por essa dor em me comunicar. Mas me apaixonei por Katherine Mansfield. Como é que ela consegue fazer você experimentar o que ela quer sem nenhuma barreira, como se você vestisse a máscara da personagem? Ela toma sua percepção, e você não é mais só você, mas se torna, nem que por alguns instantes, Bertha Young, Kezia, Else, Mr. Peacock, e todas as suas personagens. Queria ter esse poder leve de abdução.

Um comentário:
Adoro pencas. Essa sensação de conexão pode ser chamada tb de iluminação às vezes...
You are better and better.
Passado em Cristo! (vê isso: http://www.cleycianne.com)
Postar um comentário