sábado, 17 de julho de 2010

Mentiroso

     Ele era um mentiroso compulsivo,o que significa que ele mentiria se fosse perguntado sobre as coisas mais triviais ou as mais criativas com a mesma satisfação e insistência. O conheci no primeiro primeiro ou segundo ano, não lembro mais com certeza. O que lembro é que quando ele falava, a saliva acumulava no canto de sua boca, formando uma gosma branca, que ele sugava, de vez enquando. Estava sempre contando vantagem, achando defeitos nas meninas mais cobiçadas, como se ninguém soubesse que era despeito por saber que nunca  teria nada com nenhuma delas. Alto, com um nariz reto e olhos caídos. Suas mãos grandes e seu sorriso bizarro seriam assustadores, não fosse seu jeito desengonçado de andar, que revelava suas fraquezas.
    No começo eu ignorava suas histórias totalmente inacreditáveis, mas depois de um, dois anos, as versões extraordinárias da saga daquele menino, que se pintava quase como um herói, se tornaram insuportaveis.  Não conseguia acreditar que ele me achasse tão imbecil a ponto de acreditar que ele estudava em duas escolas ao mesmo tempo, que tinha todos os cds de todas as bandas que você imaginasse, que já tinha dispensado a fulana e a beltrana, que sabia tocar baixo e guitarra e falava francês e inglês, que tinha seu próprio carro antes mesmo de ter idade para poder dirigir... e blá blá blá.
   O pior é que as mentiras eram tão constantes que percebi que ele mesmo começava a acreditar. O auge foi quando terminamos o terceiro ano. Fizemos vestibular. Primeiro, ele não quis revelar que curso tentaria. É normal, pensei, todos ficamos nervosos, medo de ser criticado. Depois de passar toda a vida escolar mentindo sobre suas notas, mesmo depois de eventualmente descoberto, o mentiroso tentou esconder o resultado do vestibular. Não é tão fácil esconder uma coisas dessas. Aparece nos jornais e até em algumas rádios. Um tanto obcecada por desmascará-lo,  pedi para um amigo buscar pelo nome do tal nas listas de aprovados. Nesse tempo eu mal sabia ligar um computador e muito menos tinha grana para ter internet em casa. O resultado era óbvio, ele não tinha sido aprovado. Estava na lista dos classificáveis do curso de filosofia, numa posição tão baixa que umas três salas cheias candidatos raivosos teriam que desistir da vaga para que ele pudesse entrar. Não resisti. Liguei para ele para saber do resultado e ele me disse ter sido aprovado. Não consegui suportar aquilo. Como é que ele podia fingir que eu era retardada? É claro que ele sabia que eu sabia a verdade. Como continuava a mentir? Eu precisava gritar que ele era um mentiroso, em cada detalhe da sua vida, desde sua higiene pessoal até sua religião, ele mentia o tempo inteiro...podia jurar que até em seus sonhos. "Mas eu não vi teu nome na lista dos aprovados"- eu disse.
E ele simplesmente mudou de uma mentira para a outra, puxando um assunto sobre a escola imaginária em que ele tinha estudado, ao mesmo tempo em que estudara comigo.
"Mentiroso!"-gritei em pensamento. Desliguei depois de mais alguns minutos de conversa. Informações que nem eu sabia mais se eram verdade ou mentira. Por via das dúvidas, decidi não acreditar e nunca mais tocar no assunto.

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