terça-feira, 8 de março de 2011

Dia da Mulher


Abri meu orkut e vi recadinhos de “feliz dia da mulher”. Lembrei automaticamente do blog da Lola e pensei “ela deve ter algo interessante a dizer sobre isso”. Comecei a ler posts e mais posts sobre feminismo, sobre a educação dos homens e finalmente sobre violência contra a mulher.  Que mulher nunca sofreu um abuso, de qualquer tipo? Quando eu era criança ficava indignada quando um idiota dizia alguma obscenidade na rua, mas minha mãe sempre dizia que o melhor era não responder. Com o tempo parei mesmo de responder, mas algumas situações são tão terríveis que é impossível calar. Depois de presenciar homens se masturbando na rua por 2 vezes, não consegui não reagir na terceira. Bem, na verdade não é que eu tivesse me controlado para não reagir nas duas primeiras. Eu só fiquei tão chocada que só consegui dizer um “puta que pariu” e sair de perto. A terceira vez foi o resultado da indignação acumulada. Estava caminhando pra casa (na época morava atrás da UFC, a menos de um  quarteirão da 13 de maio) e vi um homem se masturbando, em frente a um portão de uma casa vizinha a minha, ao lado de sua bicicleta. Fiquei chocada (é, ainda fico chocada) por ele ser tão descarado, já que estava quase ao lado de um curso de idiomas, pertinho do portão da UFC e da 13 de maio , geralmente super movimentada. Cheguei perto dele e comecei a falar coisas básicas , tipo “tenha vergonha na cara”, às quais ele respondeu que me calasse senão levaria um tiro. “Tu lá dá tiro em ninguém, seu &¨%$”. Ele finalmente se recolheu, tentando se esconder no canto da parede. Fui para casa e chamei a polícia. Ele não foi encontrado, mas espero que a experiência tenha servido pelo menos para inibi-lo de fazer o mesmo novamente.
Outro caso que me veio à cabeça foi uma agressão física direcionada à minha pessoa.
 Pasmem, ela aconteceu bem no meio de uma manifestação contra a violência contra a mulher, na praça da Gentilândia. Eu ainda morava lá perto e estava passando pela praça. Encontrei um amigo e fiquei ao lado dele, conversando. Um rapaz totalmente alcoolizado se aproxima. Ele já tinha me importunado outras vezes em calouradas por ser amigo desse cara com quem eu conversava no momento, mas eu nem lembrava o nome dele. Decidi fingir que não o tinha visto e eis que ele se aproxima e de dá uma gravata. Peço pra ele me soltar e ele começa a dizer “Sarah, você lembra do que você fez comigo?”. Fico apavorada e ameaço morde-lo se ele não me largar. Ele me joga no chão e tenta me chutar. Minha sorte foi que as pessoas que estavão próximas, amigos dele, o impediram.  Vou até uns policiais que estão lá por causa da manifestação e digo o que aconteceu. Eles não fazem nem menção de se mexerem. Mostro o local onde o rapaz, Mário , estava e descrevo como ele estava vestido. Atordoada, vou embora, mas umas meninas que assistiram o que tinha ocorrido pedem que eu volte e me certifique de que os policiais vão fazer alguma coisa, pois se eu fosse embora, segundo elas, nada aconteceria com o agressor. Volto acompanhada pelas duas que espalham a história e logo as meninas da manifestação cercam o cara. O que mais me indignou é que quando encontramos o tal de Mário, que tinha voltado para o mesmo banco da praça achando que eu tinha ido embora, o policial apenas mandou que ele saísse de perto de mim e fosse sentar lá longe. Quando a multidão me mulheres começou a gritar e exigir alguma atitude, Mário correu. Meu namorado, que por sorte tinha vindo a minha procura naquele momento, o seguiu e conseguiu pegá-lo. Os policiais finalmente algemaram o sujeito e o colocaram numa viatura. Ofereci-me para ir na mesma viatura e os policiais disseram que nós todos (eu, meu namorado na época e as testemunhas) não poderíamos ir junto. Pegamos um táxi e fomos à delegacia.
 Mais de uma hora se passa até que a viatura chegue com o Mário, que estava então sem algumas e acompanhado de uma amiga. No momento do depoimento a menina diz que eu estava abraçada com ele, e não levando uma gravata. Ao ser perguntado sobre os motivos de ter me agredido ele afirma que há um ano eu teria o chamado de travesti e teria jogado cachaça em seu rosto.
Um bom tempo depois disso tudo fui chamada para ir até a delegacia. Nem tive tempo de consultar um advogado, pois recebi uma ligação poucas horas antes. Como eu tinha me mudado, nunca recebi as cartas da justiça. Mário estava lá, muito bem arrumado, acompanhado de um advogado. E eu, sozinha, fui questionada se eu preferiria processá-lo, retirar a acusação, ou que a justiça o punisse. A opção que me soou melhor foi a última. Pura inocência e ignorância minhas. A punição foi que ele pagasse 1 salário mínimo. Ele disse que era muito. A mulher que auxiliava o juiz sugeriu que ele prestasse trabalhos voluntários então. Ele disse que não tinha tempo, pois logo começaria num emprego novo. Resumindo, ele teve que pagar 240 reais em duas parcelas. Decidi que o dinheiro iria para uma instituição de caridade. Ali, na frente do juiz, de seu advogado e dos outros (que não sei exatamente o que faziam) ele ainda reafirmou que tinha razões para me agredir, que eu o tinha  ofendido chamando-o de travesti. O juiz disse que ele poderia muito bem ter me processado, mas, como o pobre Mário mesmo afirmava, essa terrível agressão contra sua masculinidade teria acontecido há mais de 1 ano,e ele não poderia mais abrir processo. Que pena. 

O agressor conhece muitas pessoas que conheço, mora inclusive na rua onde eu morava na época, Marechal, perto do CLEC. Me pergunto se os amigos dele que presenciaram a agressão, e se a menina que mentiu no depoimento, agiriam da mesma forma se a pessoa agredida fosse alguém da família deles.
Pra quem não sabe, esse tipo de agressão não entra na lei Maria da Penha, que só protege mulheres agredidas por companheiros ou familiares. Como o agressor no meu caso era um desconhecido, a violência foi tratada como agressão comum.

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