Todos anseiam por ouvir o que são. Pode parecer ridículo, mas você quer isso também. Ir à cartomante a ouvi-la descrever sua personalidade com detalhes é até mais prazeroso do que tentar acreditar nas previsões criativas para um futuro improvável.
A solidão é uma coisa que me atormenta. Que outro motivo eu teria para querer um cachorro de presente de aniversário? Aqui está ela. Sempre que me ouve entrar em casa chora e geme até que eu vá vê-la. Depende do meu amor, da minha atenção. E me pergunto até onde somos diferentes.
Eu sou uma cachorra mesmo! Mas também sou um gato. Eu pensava que era a solidão que me perseguia, mas sou eu que a escolho e adoto para mim. Prefiro ficar sozinha, observando as pessoas que se cercam de milhares de coisa só para fingirem que estão com alguém, tem vergonha de serem deixados a sós com eles mesmos, como a menina que espera na fila e liga de cinco em cinco segundos para saber se seus amigos estão chegando. Eu riu de como ela não consegue suportar a ideia de que pensem que ela não tem ninguém. “Não estou sozinha, viu? Meus amigos chegam daqui a pouco.“ Ela quase grita. Não estou só. Não estou só. Repita três vezes e se tornará verdade.
Eu, um ser solitário por opção caminhando pela beira mar. Um provável ladrão me segue. Impossível alguém me roubar sem ser notado. Já fui roubada vezes demais pra cair nessa. Em minha fuga discreta, desvio o caminho e escuto um som saindo do Brooms.
“O que tá rolando aí? Paga pra entrar?”
“Pode entrar, é um festival de bandas.”
Eu entro sorridente com minha flor no lado do cabelo e minha cara de ressaca. A lata vazia de coca cola na minha mão mal é uma materialização da minha condição estomacal precária. É preciso arrotar. Isso não adianta muito. Tudo só melhora quando consigo cagar as coisas ruins de dentro de mim no banheiro do bar. Olho-me no espelho depois desse alívio e vejo como estou cansada. Não deveria estar ali. Minha cama era o lugar que mais combinava com a minha expressão de “merda de lugar”.
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