Sangue quente escorrendo pela minha coxa direita, formando uma poça que em breve envolve todo meu corpo. Depois de ser arremessada ao chão pela gigante Golias gorda, eu, Davi derrotado de 54 kilos, caio como um saco de bosta no asfalto. Sento e vejo o pedaço de vidro enorme enfiado na minha carne, já banhada em sangue, sangue esse que parece infinito. Puxo o corpo estranho de mim como se fosse o Rambo, ou algum outro protagonista de filme de guerra americano, ou talvez um androide. Isso faz o liquido vermelho quente jorrar mais ainda, como se fosse possível. De repente uma multidão se forma dentre os bêbados curiosos que, poucos momentos antes, se preocupavam apenas em ficar cada vez mais bêbados. Alguém amarra minha perna com uma camisa. O Adrian surge com outra camisa e amarra também. Uma camisa preta e uma branca, e meu sangue ainda salta louco de dentro de mim. Isso está errado, eu penso e falo, tentando tirar a camisa preta atada à minha perna dilacerada. Um desconhecido caridoso me joga em seu carro. Admiro pessoas que não tem apego a bens materiais. Minha vida foi mais importante pra ele do que o fato de ter seus bancos banhados pelo sangue de uma desconhecida que não valia a pena. Alguns litros depois, estou no IJF. Comigo Michele, Adrian e o desconhecido, que segue seu caminho depois de prestar a boa ação do dia. Alguém me traz uma cadeira de rodas, mas só depois de me perguntar o que aconteceu e de se certificar que todo aquele sangue brotando da minha coxa fazia jus ao hospital mais lotado de fortaleza. Digo, aliás, grito que levei uma facada. Alguém que já dependeu tantas vezes do SUS como eu começa a aprender os truques de um pronto atendimento. Grito que estou perdendo muito sangue. Vou perder minha perna! Levei uma facada! Tá doendo muito! É lógico que um ser tão escandaloso e desesperado mereçe entrar. Eu entro. Meus amigos ficam para trás. Uma vez lá dentro, suas chances de ser atendido crescem...talvez de zero para dez porcento. E é preciso agarrar esses dez porcento com todas as suas forças. Eu grito ainda. O mesmo discurso. Um residente (Evil), jovem rico que odeia ser médico, simplesmente me diz "Você acha que é a única pessoa sangrando aqui? Tem casos mais graves que o seu." Eu levei uma facada e tô me esvaindo em sangue, isso não é grave? " EU não estava em um lugar onde poderia levar uma facada." Um residente se achando DEUS: digno de decidir quem merece ou não viver, quem deve ou não morrer afogado no próprio sangue. Eu grito: Agora pronto, não vou ser atendida porque o médico não gostou da minha cara e acha que levei uma facada porque quis.
Toda a equipe me dá as costas. Tento segurar a dor, pensar em coisas tranquilas, mas só sinto cheiro de doença e sinto o calor da minha vida saindo pela minha coxa. Olho pra ela. Um pedaço enorme da minha carne ao molho cabidela dependurado, morrendo. Sento na maca. O sangue salta em jatos mais fortes. Vejo-o se acumular no colchão imundo onde estou e misturar-se a pequenos pedaços de nãoseioque brancos. Olho para os médicos, ainda decididos a me castigar com sua indiferença. Então começo a passar minha mão no sangue e desenhar na parede, falando loucuras delirantes de moribundo. Não tinha interesse de forma nenhuma figura, apenas de transmitir um certo desespero assustador o suficiente para afetar o próximo a ter sua maca colada naquela parede de espera eterna. Mais gritos, gemidos e sangue e eles se aproximam. "Só me costurem que eu vou embora, só isso." O médico de verdade (não residente-evil) começa a me costurar, não antes de me dar várias injeções com anestésico dentro da minha coxa aberta. Dor. Dor.
Nunca tinha levado ponto antes. Me reviro na maca. Tapo minha boca como se fosse a de um desconhecido escandaloso. Algumas agulhadas depois, o médico diz que a sutura era trabalhosa. "Eu não disse que era grave?" Ele me olha de cara feia. "Tu é o Dr. House." Cara mais feia ainda. Ele desiste, Dá uma desculpa e pede pra outro residente me costurar. Esse não é evil como o outro. Um pouco de humanidade ainda reside em seus olhos. Ele me costura conversando. Apesar de mais humano, sua mão é mais pesada do que a do Dr House e sinto a agulha, ou melhor, o anzol de pesca entrar e sair da minha carne. Ele se espanta com a quantidade de besteiras que eu falo e pergunta se cheirei, pergunta o que eu tomei. "Se eu tivesse cheirado tu acha que eu taria sentindo essa dor?" "Um conselho pra você, se é que eu tenho condição de dar conselho: não percam a humanidade. As pessoas aqui são muito desumanas." As meninas ao meu lado, também residentes, conversam como se estivessem na hora do recreio. Uma delas diz ter prova na terça. "Eu tenho prova na segunda!" "De que?" "De francês...Je ne parle pas rien."
Eles me costuraram enfim, depois uma das evils foi pegar um soro pra colocar na minha veia. "Lê isso aí dreito pra ver se num é silicone, as gatas colocam as coisas na gente sem nem ler direito...se for silicone coloca nos meus peitos, não nas minhas veias." Tão palhacinha, a doente mais alegrinha."Nunca dependam so SUS, é uma merda!" eu gritava para os residentes asustados, me julgando como uma louca drogada que deveria ter feito confusão suficiente para levar a tal facada. "Não levei facada, eu confesso, me jogaram no chão e caí num caco de vidro, tudo porque tentei apartar uma briga." De vez em quanto a cabeça do Adrian preocurado surge na porta de entrada do corredor onde eu agonizava. Eu grito que ele tenha calma, que me espere. "Te amo lá fora." Uma enfermeira vem e diz que está com a antitetânica que pediram. Ela enfia a agulha no buraco da minha perna, provocando talvez o ponto máximo da dor da noite. "Ai, sua louca!" eu grito insana. "Sua louca não! Me respeite! Eu sou a enfermeira chefe!" "Não quis faltar co respeito, desculpa, viu." É incrível como as pessoas se preocupam com satus enquanto eu só conseguia me preocupar com o pedaço de carne pendendo da minha coxa...depois de remendada e estancada, a tal enfermeira chefe entra gritando que desocupem logo a maca, pois tinha acabado de chegar um homem com ferimento a bala no pescoço. Eu digo para o residente humano que ele me deixe ir, que o outro lá precisa da maca mais do que eu. Ele tenta negociar que ele fique um pouco mais, mas sou lançada porta a fora numa cadeira de rodas. Adrian e Michele estão lá. E eu sou só pedidos. Ele tenta gravar alguma coisa com meu mp4, mas eu me revolto. Fico morrendo de ódio. "Tu quer fazer da minha vida um momento jornalístico? Me dá essa porra agora, isso é MEU!" Ele se nega, tenta tomar a porra da minha mão. Fico mais possessa ainda. Eu com a perna recém remendada e a pessoa discutindo comigo! Ele me devolve o mp4 e vai embora indignado. Me sinto uma aleijada ao vê-lo sair pelo corredor, e depois vê-lo passar na rua ao lado. Só uma porta com partes de vidro nos separavam e eu nunca o senti tão distante. Peço a Michele que corra atrás dele em vão. Olho para ela. Uma pessoa tão boa (detesto essa palavra para adjetivar seres humanos, mas é a melhor para ela). O que ela tinha a ver com tudo aquilo? Seu vestido de fada tão lindo tinha agora uma mancha enorme de sangue, assim como as mãos dela, assim como as do Adrian e as minhas. Ao perceber isso me dou conta do quanto sangue perdi. Se tivesse aparado com uma garrafa poderia doar para 3 pessoas que estava ali, gemendo nos corredores comigo. Penso em alguém para ligar. Alguém que possa vir nos salvar. Ligo para meu ex, que, obviamente, não atende. Ligo para meu amigo, Thiago, que atende e vem me salvar. Adrian volta antes que a carona milagrosa chegue. São umas duas da manhã. Ele tinha ido bem ali, se acalmar. Pede dez reais e vai se acalmar mais. A carona chega. Deitada no banco traseiro com a fada Michele e Thiago nos bancos da frente, sinto o universo rodar. Minha pressão cai. Engraçado, eu achava que num desmaio, as vistas escureciam, mas é justamente ao contrário. Tudo vai ficando cada vez mais claro, até que o mundo vire branco. Você continua ouvindo tudo, mas perde o controle. Isso quase aconteceu quanto tentei levantar a cabeça. Depois de "melhorar", se é que posso chamar isso de melhora, vamos à caça de Adrian, o tensinho da estrela. Lá estava ele, relaxando na praça da bandeira. Conseguimos chegar ao apartamento da Michele. O caminho pra mim foi uma grande viagem de ácido, embora eu nunca tenha tido uma viagem de ácido. Cheguei à conclusão de que ninguém usaria drogas se soubesse a viagem que dá perder metade do sangue do seu corpo. Cuidados e amor no lar de Michele, mas o dia amanhece e preciso ir embora, preciso dizer pra minha mãe que não consigo andar. Ligo para outro amigo. Felicidade é ter uma carona forte o suficiente para te levar no colo por três andares. Desmaio duas vezes. Preciso de outro hospital. Muita dor na minha perna costurada, muita instabilidade na minha cabeça que só produz loucura que não paro de disparar pela boca. Vou para outro hospital, particular. Pessoas sorrindo, tratamento diferente. O médico parece o Seu Domingos, um dono de bar muito simpático.
Toda a equipe me dá as costas. Tento segurar a dor, pensar em coisas tranquilas, mas só sinto cheiro de doença e sinto o calor da minha vida saindo pela minha coxa. Olho pra ela. Um pedaço enorme da minha carne ao molho cabidela dependurado, morrendo. Sento na maca. O sangue salta em jatos mais fortes. Vejo-o se acumular no colchão imundo onde estou e misturar-se a pequenos pedaços de nãoseioque brancos. Olho para os médicos, ainda decididos a me castigar com sua indiferença. Então começo a passar minha mão no sangue e desenhar na parede, falando loucuras delirantes de moribundo. Não tinha interesse de forma nenhuma figura, apenas de transmitir um certo desespero assustador o suficiente para afetar o próximo a ter sua maca colada naquela parede de espera eterna. Mais gritos, gemidos e sangue e eles se aproximam. "Só me costurem que eu vou embora, só isso." O médico de verdade (não residente-evil) começa a me costurar, não antes de me dar várias injeções com anestésico dentro da minha coxa aberta. Dor. Dor.
Nunca tinha levado ponto antes. Me reviro na maca. Tapo minha boca como se fosse a de um desconhecido escandaloso. Algumas agulhadas depois, o médico diz que a sutura era trabalhosa. "Eu não disse que era grave?" Ele me olha de cara feia. "Tu é o Dr. House." Cara mais feia ainda. Ele desiste, Dá uma desculpa e pede pra outro residente me costurar. Esse não é evil como o outro. Um pouco de humanidade ainda reside em seus olhos. Ele me costura conversando. Apesar de mais humano, sua mão é mais pesada do que a do Dr House e sinto a agulha, ou melhor, o anzol de pesca entrar e sair da minha carne. Ele se espanta com a quantidade de besteiras que eu falo e pergunta se cheirei, pergunta o que eu tomei. "Se eu tivesse cheirado tu acha que eu taria sentindo essa dor?" "Um conselho pra você, se é que eu tenho condição de dar conselho: não percam a humanidade. As pessoas aqui são muito desumanas." As meninas ao meu lado, também residentes, conversam como se estivessem na hora do recreio. Uma delas diz ter prova na terça. "Eu tenho prova na segunda!" "De que?" "De francês...Je ne parle pas rien."
Eles me costuraram enfim, depois uma das evils foi pegar um soro pra colocar na minha veia. "Lê isso aí dreito pra ver se num é silicone, as gatas colocam as coisas na gente sem nem ler direito...se for silicone coloca nos meus peitos, não nas minhas veias." Tão palhacinha, a doente mais alegrinha."Nunca dependam so SUS, é uma merda!" eu gritava para os residentes asustados, me julgando como uma louca drogada que deveria ter feito confusão suficiente para levar a tal facada. "Não levei facada, eu confesso, me jogaram no chão e caí num caco de vidro, tudo porque tentei apartar uma briga." De vez em quanto a cabeça do Adrian preocurado surge na porta de entrada do corredor onde eu agonizava. Eu grito que ele tenha calma, que me espere. "Te amo lá fora." Uma enfermeira vem e diz que está com a antitetânica que pediram. Ela enfia a agulha no buraco da minha perna, provocando talvez o ponto máximo da dor da noite. "Ai, sua louca!" eu grito insana. "Sua louca não! Me respeite! Eu sou a enfermeira chefe!" "Não quis faltar co respeito, desculpa, viu." É incrível como as pessoas se preocupam com satus enquanto eu só conseguia me preocupar com o pedaço de carne pendendo da minha coxa...depois de remendada e estancada, a tal enfermeira chefe entra gritando que desocupem logo a maca, pois tinha acabado de chegar um homem com ferimento a bala no pescoço. Eu digo para o residente humano que ele me deixe ir, que o outro lá precisa da maca mais do que eu. Ele tenta negociar que ele fique um pouco mais, mas sou lançada porta a fora numa cadeira de rodas. Adrian e Michele estão lá. E eu sou só pedidos. Ele tenta gravar alguma coisa com meu mp4, mas eu me revolto. Fico morrendo de ódio. "Tu quer fazer da minha vida um momento jornalístico? Me dá essa porra agora, isso é MEU!" Ele se nega, tenta tomar a porra da minha mão. Fico mais possessa ainda. Eu com a perna recém remendada e a pessoa discutindo comigo! Ele me devolve o mp4 e vai embora indignado. Me sinto uma aleijada ao vê-lo sair pelo corredor, e depois vê-lo passar na rua ao lado. Só uma porta com partes de vidro nos separavam e eu nunca o senti tão distante. Peço a Michele que corra atrás dele em vão. Olho para ela. Uma pessoa tão boa (detesto essa palavra para adjetivar seres humanos, mas é a melhor para ela). O que ela tinha a ver com tudo aquilo? Seu vestido de fada tão lindo tinha agora uma mancha enorme de sangue, assim como as mãos dela, assim como as do Adrian e as minhas. Ao perceber isso me dou conta do quanto sangue perdi. Se tivesse aparado com uma garrafa poderia doar para 3 pessoas que estava ali, gemendo nos corredores comigo. Penso em alguém para ligar. Alguém que possa vir nos salvar. Ligo para meu ex, que, obviamente, não atende. Ligo para meu amigo, Thiago, que atende e vem me salvar. Adrian volta antes que a carona milagrosa chegue. São umas duas da manhã. Ele tinha ido bem ali, se acalmar. Pede dez reais e vai se acalmar mais. A carona chega. Deitada no banco traseiro com a fada Michele e Thiago nos bancos da frente, sinto o universo rodar. Minha pressão cai. Engraçado, eu achava que num desmaio, as vistas escureciam, mas é justamente ao contrário. Tudo vai ficando cada vez mais claro, até que o mundo vire branco. Você continua ouvindo tudo, mas perde o controle. Isso quase aconteceu quanto tentei levantar a cabeça. Depois de "melhorar", se é que posso chamar isso de melhora, vamos à caça de Adrian, o tensinho da estrela. Lá estava ele, relaxando na praça da bandeira. Conseguimos chegar ao apartamento da Michele. O caminho pra mim foi uma grande viagem de ácido, embora eu nunca tenha tido uma viagem de ácido. Cheguei à conclusão de que ninguém usaria drogas se soubesse a viagem que dá perder metade do sangue do seu corpo. Cuidados e amor no lar de Michele, mas o dia amanhece e preciso ir embora, preciso dizer pra minha mãe que não consigo andar. Ligo para outro amigo. Felicidade é ter uma carona forte o suficiente para te levar no colo por três andares. Desmaio duas vezes. Preciso de outro hospital. Muita dor na minha perna costurada, muita instabilidade na minha cabeça que só produz loucura que não paro de disparar pela boca. Vou para outro hospital, particular. Pessoas sorrindo, tratamento diferente. O médico parece o Seu Domingos, um dono de bar muito simpático.
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