quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Suicídio

Estava passando pela 13 de Maio quando vejo o George.Ele vem até o carro e pergunta:
-Sabe o Marcelo B., de barba, cabelo mais ou menos por aqui?
 Fiquei buscando na memória, mas não veio ninguém.
-Ele morreu, suicidou-se ontem.
Essa coisa de suicídio me trás um monte de lembranças, lembranças de pessoas que morreram, que sofreram, que eu conheci. Eu estava lá tão perto, mas não vi nada. Algumas delas anunciaram claramente e cumpriram o prometido. Essa se jogou de um prédio. Estudava na mesma escola que eu. Lembro de quando fui apresentada a ela, pelo mesmo George que trouxe a notícia hoje. Ela tinha um olhar perdido, triste, já conformado com o que previra para si mesma. Sua morte quase não foi noticiada. Na verdade, só soube por outra pessoa que diz ter visto uma breve reportagem em um daqueles programas carniceiros que passam por volta do meio dia.
A outra, foi uma menina que realmente conheci. Ela entrou na faculdade comigo. Foi a primeira pessoa a despertar meu interesse. Conversamos algumas vezes, ela me emprestava revistas do Sandman. Lembrei um dia desses do dia em que a encontrei no centro. Eu estava com minha mãe e ela com a família. Apresentamos nossos entes queridos, trocamos algumas palavras sobre a faculdade e seguimos em frente. Ela era muito meiga, doce, tinha uma voz calma. Personalidade que contrastava com as tatuagens que exibia, e outras tantas que guardava escondidas. Ela trancou o curso, acho que por um ano. Eu estava numa fase ruim quando ela voltou, uma fase de "poucos amigos". Ela se enturmou com outras pessoas e nossas conversas passaram a se resumir a um rápido aceno com a cabeça.
Veio a notícia da morte. Dúvidas sobre a hipótese de suicídio. Mas essa morte eu senti. O impacto fez minha garganta travar. Eu a conhecia, a via quase que todos os dias. Como não percebi que tinha algo de errado? Ficou uma sensação de tristeza.
O outro tentou suicídio. Tomou veneno. Se ele tivesse conseguido, não sei o que eu teria pensado. Esse sim é um amigo. Alguém que conheço, alguém com quem convivi e que, apesar da distância de hoje, ainda me é caro.
Agora esse rapaz. Personagem do Benfica. Sempre pelo bosque, pelos bares, com sua barba e seus cabelos crescidos. Trocamos apenas algumas palavras ocasionalmente. Lembro que o vi pela primeira vez enquanto trabalhava como figurante em um filme Cubano rodado na Casa Amarela. Pedi um cigarro. A namorada dele, uma loira de cachinhos muito bonita, me deu o cigarro e ascendeu enciumada.
E agora acabou.
GAME OVER.

Um comentário:

Thiago Menezes disse...

Gosto de te ler os escritos. De um tristesperto-sarcástico. Apenas gosto de saber-te. Não te achei okut...